quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Família, não existe amor maior

Minha primeira consulta ao obstetra durou 2 horas, uma hora de exames e explicações, uma hora de psicologia para minha mãe, meu médico foi um verdadeiro  pai, me ajudou não só na gravidez mas na aceitação dela.
Quando estava chegando em casa meu celular tocou e reconheci o número, era ele, finalmente, não contei a minha mãe, apenas deixei um bilhete avisando que iria encontrá-lo. Nem parecia que tínhamos algo tão sério para conversar, me tratou como se fossemos namorados num bar, segurando minha mão, fazendo carinho, como se não tivessem passados 30 dias sem nenhuma satisfação. Fiquei revoltada? Que nada, inocentemente achei que a partir dali tudo daria certo, ele falaria com o meu pai, assumiria o filho e quem sabe até ficaríamos juntos...doce ilusão...ou nem tanto.
Os três primeiros meses foram os mais difíceis, acho que da minha vida, além de reviravolta por causa da gravidez, começaram os enjôos, embora minha família me apoiasse era visível o abatimento de todos. Meu pai deixou a barba crescer, minha mãe chorava com qualquer pessoa que ligasse pra ela e minha irmã começou me tratar de uma maneira muito rude, acho que inconscientemente ela não me perdoava pelo que tinha acontecido. Junto com tudo isso tinha o fato do pai do meu filho nunca mais ter dado notícias, eu  sentia muito sozinha e culpada, muito culpada pelo meu e pelo sofrimento das pessoas que eu mais amava. Acredito que tive até um início de depressão, minha vida se resumia em dormir, passar mal, trabalhar, ir pra faculdade e passar todo o tempo livre deitada no sofá. Deixei de sair, não ia a festas, aniversários,a casamentos, não tinha ânimo para nada, sem falar que fiquei envergonhada de sair, todo mundo agora tinha motivo para me julgar.
Meu pai claro percebeu o que estava acontecendo, num domingo a tarde ele chegou em casa e lá estava eu deitada no sofá, e essas foram as palavras dele: “ Eu não quero mais chegar em casa e te ver deitada nesse sofá, chorando. Você vai retomar a sua vida, continuar sua faculdade, seu trabalho e vai encarar as pessoas com a cabeça erguida. Não está sendo fácil para você, nem para ninguém de nós, mas a gente vai ter que aprender a lidar com isso. Se você esta envergonhada de ir aos lugares, pode ficar tranqüila que aonde a gente for, vou chegar de braços dados com você.”
Era a força que eu precisava, porque não foi um período nada fácil pra mim. Passaram-se os nove meses e ele nunca mais apareceu, nem sequer ligou...NUNCA...NUNCA...NUNCA me ligou para saber se eu estava bem, se o bebê estava bem, se eu precisava de alguma coisa...Uma mágoa que vou carregar pra sempre, embora já tenha superado.
Nesse período sofri muito, me senti rejeitada, não sabe como dói chegar grávida em algum lugar e as pessoas perguntarem e o pai?? E você dizer, não sei... Mas aprendi muito também, conforme a barriga foi crescendo fui recebendo mais o carinho da minha família, que jamais me abandonou, confirmada a vinda de um menino foi bastante comemorada na casa onde o predomínio era de mulheres!!
O natal daquele ano teve muitas lágrimas, faltando um mês para o nascimento era um misto de alegria, superação e incertezas...até hoje quando olho as fotos da família toda chorando segurando minha barriga tenho a certeza que eles se perguntaram naquele momento: O que vai ser dela e desse bebê?? Uma certeza eles tinham seria uma criança muito amada.
Antes da chegada do ano novo meu pai me chamou na sala: Liga pra ele e pergunta se ele vai assumir o seu filho, porque se ele não for não tem problema, eu assumo, mas não vou entrar o ano sem ter essa resposta.
 Depois de tanto tempo, falar com ele novamente? Não estava nos meus planos, mas meu pai foi incisivo e disse que se não ligasse ele mesmo ligaria...preferi fazer eu mesmo. O ser humano é tão cara de pau que falou comigo como se conversássemos todos os dias, falou pra eu ficar tranqüila que até no dia 10 de janeiro estaria la...ficar tranqüila, como se isso fosse possível, e o pior...me mandou um  beijo no final...num é que a idiota ficou feliz??

Aos 7 meses de gravidez e como presente essa linda mensagem!!


Um anjo em minha vida
Gente, é claro que ele não apareceu, aqui até dou um desconto porque aconteceram alguns contratempos que prefiro não citar, mas qualquer pessoa normal daria ao menos um telefonema, ele não...
Fiquei decepcionada claro, mas acho que no fundo eu já sabia...Na véspera do nascimento, chorei muito...muito...muito...fiquei mais de duas horas na sacada do apartamento olhando pra rua e pensava: ele vai vir, não é possível...cada carro que parava na porta do meu prédio era minha esperança que renascia, mas ele não veio.
Minha mãe chorando também foi me buscar, me abraçou e disse: Não fica assim não, faz mal para o bebê.  A gente está aqui com você.Meu Deus, ele teve 9 meses pra fazer a coisa certa e não fez, por que? Eu nunca vou entender...
Naquela noite, ainda antes de dormir sentei em frente ao computador e escrevi uma carta pra ele, imprimi e guardei na bolsa, pensei que se um dia ele aparecesse eu iria entregá-la sem dizer nada...nela eu escrevi o que estava sentindo naquele momento e deixei bem claro que jamais iria perdoá-lo...não foi bem assim.
No parto correu tudo bem, meu filho nasceu lindo, forte, saudável e claro a cara do pai, não tinha um que chegasse para vê-lo que não dizia isso. No fim da tarde, o quarto estava lotado de visitas, eu tremendo e passando muito mal com os efeitos da anestesia quando ouvi a voz da minha prima dizendo...entra aqui...e lá estava ele, meio sem jeito, sem saber o que falar e como agir, eu que já estava tremendo tremi mais ainda, mas me esqueci de tudo que tinha passado, e só me lembro da imensa alegria e alívio de vê-lo ali, junto comigo, segurando meu filho nos braços.
 Não foi a situação mais confortável, mas minha família novamente foi maravilhosa, puxaram conversa e tentaram deixá-lo o mais a vontade possível. Daquele dia em diante a relação ficou menos tensa, depois de três anos morando fora ele estava de volta, e nos três primeiros meses, foi algumas vezes nos visitar, sempre bem recebido por todos. Sem dúvida que toda vez que ele me ligava avisando que ia ver o nenê, meu coração disparava, mas eu tinha consciência de que nossas chances eram mínimas, mas existiam.


                             Com meu filho nos braços, uma felicidade que nunca senti antes


Tudo denovo, será?
Enquanto isso as notícias não paravam de chegar, enquanto eu estava envolvida entre fraldas e mamadeiras, ele estava na noite, todo dia alguém vinha me contar que tinham visto ele numa festa, ou num bar, me pouparam de dizer se ele estava com alguém, jamais perguntei também.
 No feriado da semana santa, todos iriam para a fazenda, eu como trabalhava no feriado e no fim de semana teria que ficar, minha mãe ofereceu para levar o bebê e eu não tive outra escolha. Sozinha em casa minha amiga me chamou para sair, confesso que tive medo e vontade, sabia que existia a possibilidade de encontrá-lo e foi exatamente o que aconteceu. Ele foi até a minha mesa e sentou ao meu lado, conversamos, falamos sobre o bebê e quando o irmão dele chamou para ir embora ele disse que ficaria comigo...meu coração disparou.
Fomos embora e parei o carro no mesmo lugar onde ficamos na primeira vez, falei pra ele pronto podemos conversar...ele simplesmente me agarrou e me beijou. Depois de quase um ano de total abstinência..la estava eu com ele novamente., combinamos de nos encontrar no outro dia.
Acordei como se tivesse renascido, não acreditava no que estava acontecendo, ele foi tão firme em dizer que iria me ligar que não pensei em outra possibilidade. Minha amiga me chamou pra sair antes do encontro com ele, fui embora à meia noite sem que o telefone tocasse. Dormi chateada, mas como se já soubesse que isso iria acontecer. Uma e meia da manhã meu celular tocou...era ele..dizendo que estava na porta da minha casa e queria me ver. Falei que já estava dormindo, mas só faltou eu pular da janela direto no colo dele. Desci, saímos e ficamos juntos, como se nada no mundo mais importasse.
Depois disso, quase dois meses sem nenhuma noticia, não ligou, não apareceu mais...e denovo tinha chegado a época das festas na cidade...um ano atrás eu estava me divertindo, agora não iria em nenhuma delas por causa do bebê...mas ele não, como há um ano foi em todas as festas e levava a vida como se nada tivesse mudado.
Um dia cheguei ao trabalho e meu colega disse que tinha visto ele num bar....aquilo me ferveu o sangue... Por coincidência ele me ligou no mesmo dia...perguntando se podia ver o bebê.
Quando ele chegou em casa cumprimentei só de longe, ele percebeu a diferença, quando avisou que estava indo embora acompanhei ate na porta e a fechei...ele regalhou os olhos assustado, eu só pedi que ele sentasse na escada que queria conversar...

***Amanhã tem a parte final desse depoimento, com um final surpreendente!! Para escrever pra gente minhainsensatez@gmail.com. Participem, beijos!!

2 comentários:

  1. Querida Érica minha admiração!
    Aprecio essa coragem e sei que suas lutas (internas) sempre valerão! Guardo no meu coração um dos presentes mais valiosos que já ganhei: a foto que você me deu de quando eu era pequena. Ela me mostra o quanto somos possíveis!
    Um abraço e esteja feliz!
    Fá Silbor

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  2. Erikinha, chorei muito lendo seu depoimento de ontem. Não sabia o que você tinha passado e fiquei lembrando da minha história, que não foi igual a sua, mas sofrimento é sofrimento né
    Beijos

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